sexta-feira, 23 de outubro de 2009

The Thrill is Gone

A bebida cor-de-mel tinha o gosto amargo da perda. Sentia-se mergulhado até o pescoço naquele copo fundo que lhe devolvia o olhar, zombeteiramente.
Seus olhos se encheram de lágrimas, nem tanto pelo efeito do álcool lhe rasgando a garganta quanto por ter perdido a mulher que amara. A única. A mulher com quem achara que poderia ser feliz.
Era um tolo, ponderou, se antes pensava ter idéia do que era a infelicidade. Seus olhos, incongruentes, buscavam fixar-se em algo no bar escuro, mas em vão, os clientes aleatórios entravam e saíam a uma velocidade alarmante. Bêbado como estava, tampouco conseguia entender uma palavra do inglês carregado do lugar. Para todos os efeitos, estava cego e surdo. E seu paladar estava amortizado pela nicotina e pelo álcool.
Tentou se levantar. Fraco, caiu com um baque de volta ao lugar, protegido apenas pelo encosto de madeira do banco, em que se apoiou com o braço. A mão livre segurava o cigarro.
Com o impacto, sentiu o mundo balançar enlouquecido. Algo naquela inconsistência toda fazia sentido. Riu o riso dos ébrios, de si mesmo, das pessoas, da vida...e dela. E virou um moribundo novamente.
Os cabelos castanhos não lhe saíam da mente. A voz alegre, sonora, que lhe aquecia. Os olhos, profundos e gentis, era do que mais sentia falta. A forma como eles lhe buscavam, pareciam tão sinceros, tão puros. Ela era alta, quase da sua altura, e magra, o contrário da forma das mulheres que normalmente lhe atraíam. Podia ouvi-la, zombando dele, humilhando-o.
Mas, ela não havia feito isso. Era o que ele mais queria. Um motivo a mais para odiá-la.
Ele podia ouvir os passos. Seus passos, ecoando no apartamento escuro. Estava animado, seu coração batia agitado, ansioso por vê-la. Não podia se conter, pois há muito não se viam. Ele ficara fora por quase um mês, escravo do maldito contrato, em que pensara como um caminho para seus sonhos, mas que, percebia, conduzia-o na direção contrária. Cada vez mais para baixo.
Pensou em seus amigos, os outros Evangelistas. A imagem que possuía deles em sua mente estava distorcida, borrada. Quase podia senti-los mudando, transformando-se em outros, estranhos, distantes. Estavam cada dia mais distantes, mais estranhos uns aos outros. Menos ele, Marcos. Era uma montanha, imutável, fechado, uma alma isolada.
Alma. Não acreditava em alma, em espírito, em Deus ou no Diabo. Só havia um diabo no que lhe dizia respeito. E possuía lábios inacreditáveis. Lembrou-se de como Paulo misturava essas coisas abstratas de uma forma tão coerente que quase o fazia acreditar. Senão, fazia-o pensar em como o rapaz convencia tantas garotas de que aquilo tudo era a verdade. Pensava se, não fosse sua aparência de “anjo do rock”, as garotas cairiam tão facilmente naquela conversa.
Lembrou-se do pai que não conheceu. Imaginou-o vestido em um terno preto, andando por um corredor escuro, o som de seus passos ribombando nas paredes, o coração acelerado, o cigarro aceso na ponta dos dedos. O rosto diante do espelho, o seu rosto. Ele havia se tornado sua própria figura paterna, adentrando o interior de sua mente, o som do baixo em que se tornavam as batidas cardíacas. Seus cabelos, feitos de sombra, ocultando seus olhos feitos de fogo.
O fogo da ponta de seu cigarro, as cinzas. No final, o cigarro era a metáfora suprema para a vida. A partir do momento em que se acende, ela vai se esvaecendo, espalhando-se pelos ventos, e tudo que resta é uma necessidade de mais, de ter tido mais. E as cinzas. E a fumaça que empesteia o ambiente, dando aos outros a ligeira sensação de que algo passara por ali.
A angústia lhe possuía. Não conseguia mais se lembrar dEla. A imaculada visão de como era quando se conheceram. Não se lembrava mais dos momentos de amor, a amizade que possuíam. Tudo estava envenenado. Só o rosto avermelhado e marcado de suor lhe vinha à mente.
Quando saiu do corredor, abrindo a porta do quarto dela, no apartamento em que compartilharam por tanto tempo, encontrando-a, sob a luz das chamas que queimavam velas, sob um corpo masculino, em um ritual tão antigo quanto a própria vida. Ele a observou por um momento que durava séculos, em silêncio, semi oculto pelas sombras.
Naquele momento, o homem mais solitário que já existiu, ele os ouvia, as respirações pesadas, seus suspiros e oaristos. Naquele momento, ele sentiu uma parte de si morrendo. A parte que ele havia descoberto a tão pouco tempo, um pedaço de que se descobrira gostando, admirado de que existisse. Uma parte que mostrava aos amigos, sem medo das brincadeiras, da reprovação, e que se acostumara.
Não há palavras. Apenas um homem, e digo isso sem sexismo, sabe o que é imaginar o ser amado nos braços de um outro homem. É algo que atinge todo o instinto do gênero masculino, afetando os milhares de anos de existência sobre a superfície inóspita de nosso planeta. Algo imanente à nossa condição.
Vê-la daquele jeito...
Ela o percebeu. Seus olhares se encontraram e , por um momento, ela não pareceu surpresa. Nem pareceu se importar, ela estava sendo ali e ele, simplesmente, estava ali. Lá, mundos de distância dela e de seu amante. E aquela visão, aquela profanação da imagem que ele criara dela, o assombraria durante o resto de sua vida.
Um homem, negro, o cabelo raspado rente ao crânio, os lábios grossos, de onde pendia um cigarro de palha, magro e de aspecto doentio lhe observava. Seus olhos negros envoltos em uma poça amarelada, seca.
O homem sorria e falou com o uivo de um coiote.
-Agora, você tem o Blues.
Então, Marcos acordou, o pescoço dolorido, caído com a cabeça sobre a mesa. Sentiu-se enjoado e tonto. Com as mãos em sua nuca, estava Lucas, seu parceiro e melhor amigo, o homem com quem dividia os sonhos e uma ligação de quase fraternidade.
-Vamos para casa, Marcos. Você precisa sair desse lodo.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Julgamento Final -Audiência de Instrução e Julgamento

Abraxas se aproximou. Em sua mão, um calhamaço de folhas brancas.
-Bem, sua audiência será em duas horas.
-Já era tempo. Faz quase dois anos que eu estou esperando.
-Bom...dois anos aqui não são nada comparados ao que poderia estar passando no Inferno.
-Isso é verdade.
-Não perca a esperança.
As duas horas seguintes se passaram entre explicações de praxe sobre a ordem dos ritos, sobre o que deveria ser falado e as reações que o finado deveria esperar.

Por fim, um anjo com uma trombeta os chamou e eles entraram num grande salão. Diante de uma mesa de mármore, um anjo com três pares de asas os observava.
-Abraxas!
-Auriel! Que prazer em vê-lo.
-Temo não poder dizer o mesmo, meu Irmão.
-Ora, ainda ranzinza! Não sei como podemos chamar isso de Paraíso, com pessoas de humor tão ruim.
-Dispense-me de seu falatório, Advogado. Traga-me o pecador.
-Ele está aqui – e voltando-se para o falecido – não deixe que o mau humor dele o perturbe.
-EU NÃO ESTOU MAU HUMORADO, ADVOGADO. Hum...bem, prossigamos. Sr. Afonso?
-S-sim, meretíssimo.
-És culpado por inúmeros pecados. O que diz antes da Condenação?
-Protesto, Auriel.
-É claro que você protesta, Abraxas. Qual a causa, desta vez?
-Você já condenou o pecador!
-Claro que sim. Os pecados foram testemunhados por Nosso Senhor. Haverá alguma dúvida sobre a existência deles?
-Claro que não. Mas há as discriminadoras, as excludentes...a Bíblia está repleta delas.
O anjo passou as mãos sobre os olhos.
-E você vai invocá-las, Advogado?
-Claro que sim. Todas elas.
-Céus. Apresente sua impugnação, Advogado.
-Aqui, Auriel – e jogou o calhamaço sobre a mesa.

O anjo pegou-o. Basicamente, era uma cópia dos autos de acusação, mais centenas de citações bíblicas específicas para cada pecado e sobre o Perdão Divino e sua Importância. Mais menções a filósofos humanos que contradiziam a existência do livre arbítrio, menções ao Determinismo, questionamentos divinos. A preferida de Abraxas era uma analogia com o contrato social de Rousseau, em que afirmava que a Aliança era um contrato propriamente dito e que, Deus, ao permitir a fome, a violência, a corrupção, as mortes, a desigualdade, estava descumprindo Sua parte no Contrato, o que tornava inexigível que os humanos, no caso o Cliente Afonso, cumprissem a sua parte.
O sorriso cresceu no rosto do anjo caído. Auriel ergueu os olhos para o Céu e seu rosto de Iluminou.

-REGISTREM-SE NOS AUTOS A APRESENTAÇÃO DA IMPUGNAÇÃO. O CÉU APRESENTARÁ A TRÉPLICA. ADIE-SE O JULGAMENTO. INTIMEM-SE AS PARTES. Estás dispensado, pecador.
-E agora?- perguntou o homem.
-Agora, nós esperaremos- respondeu-lhe, sorrindo o Advogado.

domingo, 4 de outubro de 2009

Julgamento Final

-Sr. Afonso?
Estava na fila há quase dois anos e acabou surpreendido pela voz angelical que lhe falava.
-Sim?
-Senhor, estamos analisando seu processo. Aqui estão seus pecados, se o senhor fizer a gentileza de aguardar, chamá-lo-emos para que venha se defender.

As palavras foram acompanhadas por um grosso volume de capa avermelhada, com dourados caracteres garrafais: PECADOS.

-Deve haver algum engano...
-Engano nenhum. Nós nunca nos enganamos.
-Mas, aqui estão meus pecados, certo? Eu não posso ter cometido todos esses pecados! E os meus atos de bondade? Onde estão?
-O senhor morreu com sessenta anos. É muito tempo para que um humano cometa pecados. Neste volume estão todos os seus pecados remanescentes, já descontados seus atos de bondade genuína. Claro que não contamos aqueles que o senhor praticou pensando somente em si mesmo.
-Mas...
-Por gentileza, senhor. A fila é grande. Não posso me demorar mais. O seu caso será Julgado daqui a algum tempo.

Tempo. Perguntou-se quanto tempo mais ficaria ali naquela antecâmara. Por um lado, lembrou-se de que não tinha mais nada para fazer e que Eternidade é muito tempo. Afastou-se da fila e sentou-se em uma grande poltrona dourada.

Capítulo I: Infância

4 de Abril de 1953, 18 h e 51 m: Apanhou um brigadeiro da mesa, desobedecendo sua mãe, no aniversário de seis anos de seu irmão mais novo.
4 de Abril de 1953, 19 h e 14 m: Colocou a culpa no irmão.
4 de Abril de 1953, 19 h e 16 m: Riu do irmão, que chorava após ter sido, injustamente, repreendido.

Foram-se quase dois meses e o detalhismo dos fatos narrados só não lhe aborrecia mais do que o incômodo que suas costas sofriam ao serem pressionadas contra o acento dourado. O ar era fresco demais, as pessoas eram silenciosas demais graças a um grande aviso gravado em uma placa de ouro:

SILÊNCIO NA ANTECÂMARA: OS PECADORES TERÃO A ETERNIDADE TODA PARA SE LAMENTAR.

Aquele devia ser o purgatório. Mas, não era. Para todos os efeitos, ele ainda estava no Céu

Um homem em um terno escuro se aproximou. Estava empecável, alinhadíssimo. Os cabelos engomados e penteados para trás, realçando o discreto par de chifres avermelhados que lhe brotava, elegantemente, da testa.
-Sr. Afonso?
-Pois não? Vão julgar meu caso?
-Lamento, creio que ainda têm muitos outros antes do seu. Permita que eu me apresente, sou Abraxas, advogado.
-Eu não pretendo usar um advogado agora, senhor. Receio que não haja meios de safar desta. Não poderia engambelar o Senhor.
-Certamente que não, mas olhe, há muitas brechas na Lei. A Bíblia toda está repleta de casos de pessoas que contornaram rígidas posições. Algumas com Sua benção. Acredite. Não posso te prometer o Céu, mas o livrarei do Inferno.
-Sei, e o que você ganha com isso? Minha alma?
-Exatamente.
Ao ver o espanto no rosto de seu cliente em potencial, Abraxas sorriu.
-Nada tão supérfluo. Eu estava brincando. Sabe, é uma brincadeira interna entre nós aqui no Tribunal. Perdoe-me. Veja bem, como o senhor, não temos muita coisa para fazer. Somos advogados. Quando a Estrela da Manhã se revoltou, houve a formação de duas facções: os que permaceram fiéis e os revoltosos. O que poucos sabem, é que houve uma terceira. Poucos sabem porque nenhum dos dois lados gosta de assumir nossa existência. Sabe, ninguém gosta muito de advogados (a não ser quando precisam de nós, o senhor mesmo terá a chance de testemunhar minhas palavras). Enfim, não temos muito o que fazer, fomos banidos do Céu, mas somos mal vistos no Inferno. Por isso, unimo-nos e abrimos um grande escritório no Limbo para que pudéssemos passar o tempo. As causas boas como a do senhor podem nos render quase um milênio de diversão. E então, posso ver o seu processo?

Fim da Parte I

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Das Mensagens que nunca que se perdem

E das coisas que devemos ter sempre em mente.

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Telefone Vermelho.

O telefone vermelho já não toca mais, a esperança depositada em um novo modelo de vida foi deflagrada pelo niilismo. Os anos se passaram e os vestígios do fascismo pairam sobre o torvelinho social. Esta onda devastadora, que arrancou e estraçalhou todo o modo de vida fundado na transformação do Homem.

A passividade notável culmina na fragmentação do sujeito. Tendo em vista, que o homem caminha pela vereda da subjetividade total, isto é, os indivíduos perderam a dimensão do realismo crítico. Conseqüência ocasionada pelo frenético e pelo acelerado mundo dos acontecimentos, que inviabiliza a reflexão e a observação dos fatos cotidianos. As grandes propostas ideológicas, hoje, encontram-se assoladas ou encurraladas pelo fenômeno niilista.

O fascismo foi e é tão devastador, que seu cheiro fétido pode ser sentido nas grandes alamedas urbanas, fazem-se tudo, mas tudo é feito sem nenhum sentido. A lógica do mundo é fragmentar o Homem cotidiano na sua ação, porque, seu poder em estado estilhaço nada tem de ameaçador, visto que tudo pode ficar como estava no estágio anterior, ou seja, passivo. O velho telefone vermelho, há tempo, nunca se viu tocar, seguindo outras tendências ele é apenas um móvel inteligível no canto da sala, mas inutilizável.

Muito se produz de entretenimento, objetos ganham vida e identidade de slogan. Neste provir o produtor do próprio produto perece. A única chama de mudança se embriaga na instabilidade idealizada do real, múltiplos sentidos são experimentados em seu mais elevado grau. Apresentável e atraente, nem forma e nem conteúdo, o niilismo consome a essência humana. As situações pré-estabelecidas e condicionadas almejam por ofuscar o sujeito na subjetividade, muito embora, as coisas que se apresentam nem sempre possuem finalidade ordenada.

É sabido que nem sempre a obra faz o artista, muito embora, a obra de um artista esta na sua expressividade por buscar um canal de comunicação. Diante desta circunstância o cotidiano é permeado pela subjetividade, a qual e por meio da espontaneidade busca expressar a criatividade. Por mais brutal que seja a ânsia de ofuscar o ser social, nada é tão irredutível quanto à subjetividade do ser. Podemos até conceber uma realidade de finalidade ordenada, que tenta por aparatos coercitivos enquadrar a vida e as ações. Mas o niilismo nas medições da subjetividade do Homem se acua.

Alhures o telefone vermelho é apenas um sonho consciente, fora de lugar e impreciso um peça sem utilidade. Neste tempo paradigmático, ou seja, de mudanças, o “novo” não se apossou de tudo, visto que algo ainda persiste nas entranhas sociais. As velhas buscas e projetos de construção do real continuam a suspirar. Consoante a tal perspectiva, a “loucura” panfletada pelos sonhadores é até intrigante, o modo como esta dita “loucura” brota pelo chão e passa por processos rigorosos de vigilância monitorada. Fazendo do poder “soberano”, a grande instabilidade, pois, diante da ação imprevisível a “loucura” impera com grande furor sob a intuição da ordem. A dissolução dos contextos degrada a poética da vida cotidiana e grande parte da concretude Humana fica na oscilação harmônica, a qual acarreta o niilismo absurdo na não reinvenção da vida.

O insustentável pêndulo de uma falsa esperança vã, que se quer fez barulho e não se faz valer passa por um processo corrosivo. O qual o niilismo, juntamente com o fantasma do fascismo tenta destruir e fragmentar, todavia, é diante da subjetividade que buscamos através do desenvolvimento criativo reavivar o que está em estado mórbido. Digno de observação a “loucura” sempre nos intriga, algo que o nosso telefone não o fez, pois neste estado de caminhada solitária a espontaneidade e a imprevisibilidade é a luz de nossa subjetividade.

O niilismo com suas situações previsíveis de banalização do cotidiano não haverá de ir até o fundo de sua ação, pois nasce aqui um novo aparato de guerra, a poética cotidiana.

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Three o' Clock Blues

-Então, o que achou?
-Uma grande merda- respondeu.
-Z.Z. Top?
-Não...- desviou os olhos para o televisor a cores, um verdadeiro milagre - se bem que esses caras não deveriam ter saído de seus caminhões.
Lucas riu. Aquele sarcasmo era a virtude e o pecado de seu melhor amigo. Um sarcasmo a que havia se acostumado a uma centena de anos, desde quando eram pequenos. Enquanto ninguém se metia com aquele garoto metido a engraçadinho, Lucas ofereceu-lhe a amizade. Desde então estavam sempre juntos e passaram a partilhar do mesmo amor pela música.
Aos fundos uma outra conversa, com as vozes alteradas pela bebida e sabe-se lá qual outro tipo de drogas.
-Eu to te falando. Eu vi Deus. Estava viajando e tocando meu piano e então, Ele apareceu feito de luz e som. Uma imagem incrível e se gravou em minha mente e me libertou.
Marcos tentou ignorar aquele diálogo lisérgico.
-O que você acha uma grande merda, então?- perguntou-lhe Lucas, tentando emendar o assunto.
-Essa porra dessa gravadora. Esse contrato de merda. Não era isso que a gente queria.
Estavam em New Orleans. Há cerca de um ano fizeram um show em uma casa em São Paulo. Um grande show, diga-se de passagem. E o destino os brindou com um figurão americano que lhes propôs, ao custo de suas almas e de alguns meses de suas vidas diria Marcos, um contrato para viverem e tocarem na América. Abririam alguns shows de bandas maiores e gravariam os instrumentos de outras bandas e, enfim, poderiam gravar seu próprio disco e fazer sua própria turnê.
Mas, aqueles “alguns meses” estavam levando tempo demais. E, só haviam começado a gravar seu disco há um mês. E a gravadora insistia em intervir, dando palpites e solicitando modificações. Não bastasse isso, os próprios companheiros de banda estavam criando problemas. Quando não era a excentricidade de um, era a ausência de outro.
O Pingado, apelido carinhoso do baterista que, quando os quatro se reuniram para beber pela primeira vez, quebrando regras e tabus, pediu ao balconista meio copo de café e meio de leite misturados. Enfim, o Pingado arrumara outros trabalhos, colaborando com outras bandas da gravadora, passava mais tempo em viagens do que com a Banda. Era raro quando podia estar junto dos outros gravando. Neste momento, solava dentro da cabine de som.
-Mas, estamos aqui gravando não é?- disse Lucas, embora ele mesmo não estivesse satisfeito.
-E Deus começou a falar comigo, a voz dele parecia uma guitarra distorcida. E ele falou durante horas e quando eu vi, não havia se passado nem cinco minutos- interrompeu Paulo.
-Não fode, Paulo. A gente tá tentando usar o cérebro aqui. Lembra o que é cérebro.
-Porra, Marcos. É Paul.
Marcos se levantou e encarou seu amigo.
-Só há um Paul. E ele é um Beatle.
-Havia. E não é mais. Paul Mcartney está morto. A mídia toda tentou encobrir. Colocaram um sósia no lugar dele para esconder. Eu já te contei. John, meu outro xará, está cheio de remorso. Olha os sinais nas capas dos discos.
Marcos estava cansado de toda aquela bobagem. Quando não era a conspiração envolvendo a suposta morte do Sr. Mcartney, era o envolvimento de Jimmy Page com magia negra, ou então alguma merda esotérica que ele havia aprendido com a hippie com quem fodia. Não bastasse isso, o nome dele era João Paulo. John Paul agora, em homenagem aos seus ídolos. Ah, e não suportava ver o amigo entupido de drogas.
-Cara, eu não tenho tempo para essas merdas.
Uma batida na porta interrompeu aquela discussão. Marcos foi abrir. Um homem de terno, óculos escuros e um estojo lhe sorria. Cheirava a maconha. Outro imbecil para lhe torrar o saco.
-Você deve ser o Sr. Marcos- disse o homem, seu inglês com um forte acento sulista- sou o saxofonista que a gravadora mandou.
-Hã?
-A gravadora não falou com o senhor? Eles me mandaram para gravar umas faixas. Eles disseram que seu som é cru sem o sax.
O rosto de Marcos assumiu uma feição de ódio incontido.
-E ENFIA ESSE SAXOFONE NO SEU RABO- gritava, enquanto chutava o saxofonista para fora do estúdio, inconsciente ao fato de que falava em português e de que o homem não lhe entendia uma palavra sequer.
-Cara, você tá um pouco descontrolado- disse-lhe Paulo- vem cá que eu vou energizar os seus chakras.
-Pro inferno com seus chakras, seu hippie de merda.
Marcos deixou o estúdio. A porta bateu em suas costas e ele acendeu um cigarro. Olhou para sua Harley parada na entrada. Iria a pé. A noite estava ótima e precisava de um pouco de ar.
Eram três da manhã quando Paulo saiu do estúdio. Ele ficou até mais tarde, esperando que Pingado se cansasse dos bumbos e pudesse gravar alguma coisa. Em vão, o Pingado nunca se cansava.
Deu de cara com a Harley do Marcos. Voltou para o estúdio e achou as chaves, deixadas sobre a mesa da TV. Que sorte.
Pegou a estrada. Gritava e uivava como um louco para a lua. Os alucinógenos em sua mente fazendo-o assumir seu lado mais primitivo. Sua bata colorida erguida pelo vento, assim como seus cabelos, loiros e encaracolados.
Largou o guidão. Neste momento, Deus lhe apareceu. Grande e dourado. Feito totalmente de luz e glória. As trombetas dos anjos lhe anunciavam. Paulo, emocionado, abriu os braços para recebê-lo.
-Senhor, a Ti eu me entrego.
Infelizmente, Deus era um Scânia V8 de 350 cavalos.

domingo, 9 de agosto de 2009

Continuação

O rosto de Péricles tornou-se rubro. Não esperava aquela resposta. Durante meses, a " Arte de Conquistar Pessoas" fora tão sedimentada em sua mente que aquele completo fracasso tirou-lhe as palavras, e a tão batalhada confiança.
Mas ela riu.
-Olha, você ficou vermelho.
-É...eu...não...não fiquei.
-Ficou sim. Me desculpa, tá? Vamos começar de novo. Como você chama?
O jovem, ainda desorientado, passeava os olhos do rosto belo da garota para os seios, ocultos pelo volume de livros. Ela, inocentemente, ou tão inocente quanto uma garota após a menarca consegue fingir ser, agiu como se ele estivesse, galantemente, preocupado com tão imenso peso em braços tão delicados.
-Péricles.
-Credo, que nome feio.
-É grego.
-Eu sei de onde vem. Não gosto de ler, mas não sou burra. Olha, por quê você não me ajuda a levar estes livros em casa?- Disse-lhe ela, emupurrando-lhe os livros.
Péricles, ofendido pela inibição da moça, pensou em negar-lhe aquela ajuda. Seria como um tapa pelo insulto. Quem aquela insolente pensa que é, pensava ele já com o peso dos livros sobre os braços, levando-os ao balcão. Logo, já estavam longe.
Caminhavam lado a lado. Ela, pequena e ágil, era como uma flor levada pelo vento. Ela era empolgada, ria-se à toa e sua voz era confortante. Ele, por outro lado, todo tenso, andava encolhido, o que fazia com que suas formas perdessem o ar masculino, viril, e assumissem uma aparência cansada, frágil.
Além daquela voz agradável, que parecia surgir sem nenhuma dificuldade, sempre trazendo assunto, sempre com uma resposta ou uma observação, Péricles foi recompensado com o busto da morena e seu delicioso decote, o qual o fazia perder a concentração e contra o que lutava em prol de sua dignidade.
Ela, mulher, divertia-se com aquele descontrole interno, ao mesmo tempo lisonjeada e com ânsia de provocá-lo mais e mais. Não que não estivesse cansada de exercer o magnetismo de seus dotes e ver o animal-homem vir à tona, perdendo a compostura e o respeito. Mas, aquele cara era diferente. Um homem qualquer não se preocuparia em evitar ser descoberto pela mulher, em evitar olhar e parecer interessado. E ele parecia realmente interessado.
Ela era um gênio na arte da sedução. Na arte de conquistar. Sua auto-estima era o de qualquer mulher consciente de sua beleza. Ela gostara dele e iria ensiná-lo.
-Só mais um pouco, Péris. Minha casa é logo ali.

Fim da Parte II